Em off

Um espaço que agora se ocupa em dar destino à vida de um personagem.

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Local: Curitiba, Paraná, Brazil

sexta-feira, outubro 21, 2005

opmet

O tempo se dissolve defronte aos meus olhos, derretendo e escorrendo pelo bueiro mais próximo. Lembra-me muito aquela pintura de Salvador Dalí - provavelmente a sua mais famosa - onde um relógio está dependurado dissociado e derretido por sobre os galhos de uma árvore.

O tempo derrete-se diante de mim, mas faz questão de o fazer lentamente. Ele tem consciência que está se dissolvendo; eu tenho consciência que ele está se dissolvendo. Mas, mesmo assim, o espetáculo é prolongado até seu desfecho mais esperado, e ao mesmo passo, mais agoniante, pois não me é possível fazer nada - absolutamente nada - para impedir que ele se perca. Ele parece-me feliz por assim derreter; está triunfante quando chega ao desfecho de seu movimento anti-temporal.

O tempo escapa de meu domínio. Quando tento agarrá-lo, voa em um vôo tresloucado, sem saber direito porque voa, tal qual um pássaro que voa alucinadamente com a aproximação de uma pessoa. Quando desejo que passe rápido, delonga-se em infinitas divagações, desdobra-se em uma gama de elucubrações, perde-se em uma intrincada rede de caminhos.

O tempo confunde-me e me aprisiona a uma realidade etérea em seus misteriosos destinos, estéril em suas soluções.

E cativo permaneço nessa galé, um verdadeiro escravo dominado pelo Senhor Tempo, degredado a remar compulsivamente para um destino final completamente desconhecido.

...e nem tentar colocar o tempo de avesso o fará agir diferente.

sexta-feira, outubro 14, 2005

O fantástico teorema da Oxidação

Incrível a capacidade das coisas enferrujarem.

Sei que existe um processo químico por detrás disso, com o oxigênio reagindo com os metais, liberando radicais livres (talvez a única palavra científica surpreendentemente revolucionária) e tudo o mais. Porém, não quero me referir somente a essa ferrugem natural.

Uma vez que nada sei sobre a isso - e de certa maneira sou um tanto agradecido po isso pois se soubesse eu seria alguém ainda mais chato e prolixo que já sou -, gostaria de levar a discussão para o lado poético (sim, sempre ele).

Quero falar sobre a ferrugem onírica. Então, repetirei a mesma frase que abre esse post.

Incrível a capacidade das coisas enferrujarem.

O tempo enferruja nossos amigos, nossos amores, nossas paixões e nossos ódios. Qualquer sentimento exposto ao infalível ar do tempo acaba por sofrer com a sua ação. Na maioria das vezes esse efeito é negativo; lembrem de quantos amigos já perderam não por causa de rompimentos abruptos, mas porque foram perdendo aos poucos, dia a dia, os laços da conveniência que atavam essas amizades (uma fala clichê para iluminar sua tela binária com a comodidade da trivialidade. Não precisa me agradecer). Pensem em quantos amores foram ficando gastos com o passar das horas, dias, meses e anos, até atingirem tal ponto onde não mais poderiam ser salvos. Tentem contabilizar a quantidade de sonhos idealizados - perfeitas reproduções do Perfeito - que se perderam gradualmente em suas mentes ocupadas demais com O Futuro.

E onde ou em quem podermos colocar a culpa por isso? (porquê tudo o que acontece de maléfico conosco deve sempre ter um culpado, não importa qual).

No tempo, nos amigos, nos amores, nos sonhos?

Não. Não faremos nada a respeito, pois isso é algo que está fora de nossa capacidade de ação. Continuamos como sempre fomos. E é aqui que o post chega a um ponto em que se questiona a si mesmo, limita-se a somente apontar o problema, tropeça e por fim se perde em si mesmo.

Tudo continua e continuará o mesmo. Inclusive a ferrugem.

Ps: Não sei explicar por quê, mas a idéia da ferrugem, por ser recorrente em meu discurso, já está um tanto enferrujada.